já leram.


Jogando os Dados - Colisão

Eu estava de olho nela desde que eu saí da garagem.
Quase perdi a largada porque estava encarando a maneira com que ela olhava, curiosa, para a rua, tentando entender como a nossa brincadeira funcionava.
Era uma caloura, com certeza. Se fosse mais velha, eu já teria reparado nas suas curvas impecáveis ou no seu olhar bem delineado que parecia escanear o lugar inteiro.
Acho que eu venci a corrida daquela noite por dois motivos:
1 - Impressioná-la;
2 - Quanto mais rápido eu corresse, mais rápido eu estaria livre para consegui-la.
Terminado a corrida com a minha vitória óbvia — eu não havia perdido nenhuma ainda, desde que começara a correr, no meio do meu primeiro semestre, há exatamente quatro meses —, parei bem em frente a ela, estendi meus braços para a galera e berrei:
— Vamos comemorar no Bar do Calvo! — e dei uma piscadinha em sua direção, ao que ela claramente percebeu, sorrindo e abaixando a cabeça com leveza, concordando com meu convite pessoal e discreto.
Estava quase esperando abordá-la ao descer as escadas da arquibancada montada para aquela corrida, com os quadris balançando de um lado para o outro de forma perigosa e provocativa, mas meu colega de quarto, Marcos, passou o braço pelo meu ombro, me arrastando para o bar, que ficava uns dez passos dali, pronto para nos receberem.
Ainda demorou uns dez minutos para me desvencilhar de Marcos, muito contente com a grana que ele havia ganhado apostando em mim e querendo me compensar, me pagando bebidas, e mais uns cinco até identificar a morena deliciosa, parada em um canto do bar, aparentemente sozinha, bebericando um copo de... Coca-Cola?
Eu não entendi nada. Aquela garota parecia ser do tipo que sabia exatamente o que fazer para deixar qualquer um aos seus pés. Era linda ao extremo — e não parecia estar usando nem um terço da maquiagem que algumas das meninas que dividiam a mesa com Marcos usava. Por que, então, estava se escondendo no canto? Um sorriso e qualquer um naquele bar estaria de joelhos.
Eu sei por que eu tinha ganhado um, e eu certamente estava.
— Oi, princesa, posso te pagar uma bebida? — perguntei, quase a assustando com a minha repentinidade.
Ela arregalou os olhos para mim e riu.
— Princesa? — questionou.
Meneei a cabeça com um sorriso que foi prontamente respondido e eu sabia que ela estava tirando onda com a minha cara.
— Baby, então? — perguntei. Ela deu de ombros, ainda rindo. — Posso te pagar uma bebida? — repeti.
Ela encarou a mim por um momento e, então, sua bebida. Conseguia vê-la pensar e notei que eu tinha sido o traste mais estúpido da face da Terra.
— Ãhn, não, obrigada — respondeu.
Acho que eu fiquei um momento parado olhando para ela, sem saber o que fazer. Aquela cantada nunca tinha dado errado, todas as garotas bonitas, em um bar, pareciam estar esperando que um cara charmoso como eu lhes pagasse uma bebida. Todas diziam sim.
A garota pareceu reparar que eu fiquei sem ação depois de alguns segundos de silêncio. Ela limpou a garganta e sorriu levemente, como se pedisse desculpas.
E eu já lhe perdoara.
— Você sabia que morre mais gente em acidente de carro que de câncer? — ela me questionou. Apertei os lábios, compreendendo que tipo de garota ela era. — Quero dizer, em cidades pequenas, como a nossa, nem todos os acidentes e assaltos e sequestros acabam entrando nas estatísticas porque rola muito vista grossa e tudo mais. Isso é... assustador.
— Sei — me peguei dizendo.
Sorri amarelo para ela e isso pareceu lhe dizer que estava tudo bem se ela continuasse seu discurso politizado.
— E por ter muita vista grossa, mais crimes acabam acontecendo, o que qualquer um pode concluir que é mais perigoso morar em uma cidade pequena do que em uma cidade grande!
— Claro — murmurei.
Ainda deixei a ativistazinha gostosa falar por mais um momento, despejando estatísticas que eu nunca poderia imaginar na minha vida, antes de soltar uma desculpa qualquer e me esgueirar para longe do seu tedioso e acusador papo. Eu não ia me sentir culpado por estar dirigindo em alta velocidade enquanto pagava a polícia local para não nos pentelhar enquanto nos divertíamos. Velocidade era algo que eu adorava desde criança e eu não ia mudar de ideia só porque meu pinto queria (muito) se enfiar no meio das pernas de uma ativista gostosa. Não mesmo.
Arrumei outra gata para comer. Tentei não pensar mais na garota de sorriso esperto e curvas deliciosas de quem eu não sabia nem o nome.

Eu fiz merda.
Fiquei tão deslumbrada com o cara que acabei falando demais sobre nada e fiz merda.
Mas o que eu podia fazer? O último cara com quem eu estive nem me olhava direito, e aquele ali estava me devorando com os olhos, sorrindo com trejeitos que me dizia que eu era a garota mais importante do pedaço.
Isso, claro, até eu cagar tudo e ele sair do bar com outra garota.
Respirei fundo. Eu já sabia quem ele era, claro. era um dos garotos mais gostosos do campus inteiro. E eu não estava falando de beleza — não que lhe faltasse, mas havia em outros sobrando, mais do que nele. Eu estava falando de charme, aquela coisa certeira e inabalável que fazia qualquer cara ser mais gostoso que um modelo da Calvin Klein. Isso, em , sobrava e transbordava, suas palavras e o seu sorriso esperto tinham feito minhas pernas tremerem como gelatina e eu estava caída.
O que mais eu podia fazer? Tinha passado os últimos meses trancafiada em um SPA estúpido, curando o que meu pai chamara de alcoolismo adolescente. E aí lá estava eu, há cinco dias, morando sozinha pela primeira vez na vida em uma cidade minúscula que não devia nem ter um McDonald's.
Eu tinha morado em cidades grandes minha vida toda e eu tinha que dizer: cidades pequenas eram assustadoras. As pessoas todas eram simpáticas com você sem nenhum motivo, e todo mundo queria saber o que tinha acontecido para você sair com um chinelo de cada cor naquela manhã.
Em São Paulo, no Rio ou em Brasília, isso era ignorado. Você fazia o que quisesse e só seus amigos lhe perguntariam se você estava maluca. Ali, não. Ali, todo mundo se metia onde não era chamado.
E cinco dias morando naquele lugar, eu já estava saturada. E tinha jogado todos os meus medos e frustrações na primeira pessoa que eu realmente queria que fosse simpático comigo.
Ótimo.
Em vez de arrumar companhia para a noite, eu voltei para casa sozinha e de ônibus. Mandei uma mensagem para Manu, minha melhor amiga, enquanto esperava o maldito e lerdo do ônibus.
Manu era minha amiga há alguns anos e nós tivéramos algumas experiências homossexuais juntas, embora ela curtisse mais que eu. Ela era bissexual e também filha do dono da maior empresa de mídia do país, e é claro que a gente arrumou um monte de problemas juntas.
Apesar da distância, ela morando em São Paulo — e às vezes no Rio de Janeiro —, nós havíamos desenvolvido uma amizade interessante nos momentos em que eu visitava sua cidade e ela visitava a minha. E, claro, computador e celular nos ajudavam a mantê-la intacta.
Embora ela discordasse totalmente do meu novo comportamento mais correto.
Fui dormir com o conselho que ela me dera e passei o fim de semana pensando nele — e com ela me buzinando no ouvido para segui-la. Então, na segunda de manhã, eu estava confiante o suficiente para tentar chegar em e tentar parecer ao menos um pouco mais interessante do que eu havia sido no bar.
Foi aí que tudo explodiu na minha cara.
Eu estava saindo do prédio para o almoço, procurando-o com os olhos para tentar me convidar para a sua mesa e conversar, e lá estava ele, no meio do jardim central, implicando com um garoto que parecia ser metade do tamanho dele.
Mordi o lábio e prestei atenção.
— Você não olha por onde anda, nanico — ele ria, empurrando o pobre do garoto.
— Me deixa em paz! — o garoto reclamou e fez a burrada de tentar lhe empurrar de volta.
Dois segundos e o cara estava no chão com a boca sangrando.
Droga.
Aquele era certamente o tipo de cara com quem eu não podia me envolver agora. Eu tinha acabado de sair de apuros com o meu pai e ele nem estava falando comigo; se ainda tivesse alguém da mídia ou da oposição me seguindo e eu estivesse com esse cara, iriam ter uma pauta para escrever e eu estaria mais do que ferrada.
Seu olhar cruzou com o meu naquele momento em que eu encarava lívida com a minha nova descoberta. Abaixei a cabeça, envergonhada, e passei pelo grupo, querendo me esconder.
— Ei, gata! — ele me chamou. — Quer uma carona pra minha casa?
E aí eu fiquei com muita raiva. Quem era ele para fazer minhas pernas tremerem e meu coração saltar daquela forma irritante toda vez que se aproximava ou falava comigo? Por que ele tinha que ser tão idiota daquele jeito? Tão estúpido?
Por que ele tinha que ser um problema tão, tão... gostoso?
Droga!
— Vá se foder! — eu berrei de volta.
E pisei bem forte para longe dali.










+12 comentários

Eloisa
eloisa.olher@hormail.com
177.33.68.79
Enviado em 31/10/2014 as 5:55 pm
Senhor, Deus! Eu dps dessa short NVFKNNNBDKFBVHDF

Selecionar comentário thay
thajungton@gmail.com
177.204.148.16
Enviado em 16/10/2014 as 1:21 am
É incrível como uma simples falta de comunicação, entendimento e paciência pode estragar tudo, ou pelo menos o começo de tudo nesse caso.

Selecionar comentário Beatriz A. Schmidt
beabboud1@gmail.com
179.154.195.224
Enviado em 14/10/2014 as 1:17 pm
Todo o drama que teria sido evitado se esses dois não sofressem de falta de comunicação! Hahaha <3

Selecionar comentário Gabs
your_enemy.x@hotmail.com
177.11.5.143
Enviado em 13/10/2014 as 4:13 pm
Só isso? Ah…

Selecionar comentário GABRIELA
gabsjones@live.com
177.35.228.6
Enviado em 13/10/2014 as 10:05 am
Maravilhoso como Talles consegue ser babaca desde sempre!! Ainda tô em choque que ele tem mesmo noiva, e eu não sei como lidar com isso, mas espero sinceramente que ele fique muito apaixonado pela Ludmilla, porque ele merece sofrer um tiquinho por amor!!!! Adorei a visão dos doissssss, leticia, me abraça.

Selecionar comentário Natyele
179.187.69.86
Enviado em 13/10/2014 as 2:14 am
Talles mijando fora do pinico, desde o começo jahsjadhjsgags, amo esses dois, amo essa fic e a vida é bela.

Selecionar comentário GraHH 600
grahh600lima@gmail.com
177.155.215.247
Enviado em 13/10/2014 as 1:09 am
Puts, Talles sempre fazendo merda,impressionante Kkkkkkkkk adorei. Espero que cheguemos a 1000 pessoas logo ??

Selecionar comentário med
palomed@hotmail.com
177.161.100.180
Enviado em 12/10/2014 as 9:34 pm
hahahaha só comprovando que Mila é maravilhosa!<3

Selecionar comentário Nath-Garcia
179.215.97.154
Enviado em 12/10/2014 as 9:09 pm
amei *-*
tadinha dela, ele faz tudo errado incrivel HSUIAHSIUA

Selecionar comentário Julia
juliarochamotta@hotmail.com
177.26.107.103
Enviado em 12/10/2014 as 8:36 pm
Então Leka, eu amei mesmo, de verdade, mas sou obrigada a dizer que estou um pouco confusa. Esse capitulo especial foi escrito com o Tales como piloto de corrida, então é a mesma versão que está no FFOBS certo? Mas estão tem uma frase que diz que as arquibancadas foram montadas para a luta que me remeteu à versão daqui mesmo do CDA. É só uma observação que me deixou meio em dúvida sobre qual versão esse especial foi escrito.
Tirando isso, eu estou in love. É muito interessante perceber como Mila também por atingida por essa parede de músculos e delícia que é o Tales. E cá pra nós, apesar de eu ser apaixonada por pilotos de corrida e da testosterona infinita que eles exalam, pelo menos para minha humilde pessoa, a versão Tales lutador tem um tesão muito maior.
Quero muito Garota de Domingo e farei de tudo para estar em BH pra bienal pra voce autografar seu livro pra mim viu? Porque a mineirinha aqui ama o jeito como você escreve e como suas histórias fluem de uma maneira leve e impressionante.

Selecionar comentário nathane
nathane.beatrys@gmail.com
177.64.242.180
Enviado em 12/10/2014 as 5:03 pm
aaaa amei amei amei, sem mais hahahah <3

Selecionar comentário @Carolineeana_
twitter.com/Carolineeana_
187.34.235.32
Enviado em 12/10/2014 as 4:55 pm
Ahhhhhh, SOCORRO!!!!